terça-feira, 28 de outubro de 2008

Com a palavra: outra X!

Olá!
Meu nome é eterna expatriada.
Tudo começou há 13 anos, quando me casei nos Estados Unidos. Como punição, fiquei presa neste país por um ano até receber meu cartão de residência temporário.

Durante este tempo, tenho aprendido as maiores lições de humildade da minha vida e nunca pensei que pudesse chorar tantas lágrimas...
Por muitos anos ainda sentia que estava chegando em casa quando ouvia o "Samba do Avião" ao aterrissar no Rio de Janeiro.
Uma vez alguém me perguntou como era viver no primeiro mundo. Eu lhe disse que havia deixado o primeiro mundo ao sair do Brasil.
Mas Deus nos criou com uma capacidade de adaptação indescritível! Temos a habilidade de ser felizes onde quer que vivamos e o melhor é que mesmo fazendo novos amigos nunca perdemos os que já tínhamos, "mesmo que o tempo e a distância digam não..."(Milton Nascimento).
O melhor desta experiência? Aprender que podemos desenvolver o gosto e o apreço por coisas e pessoas novas e diferentes e que nem sempre o que já conhecemos é o melhor.
E por aquele por quem fiz toda esta mudança... faria tudo novamente!
Jacqueline, Houston - EUA
Conte seu "causo" ou sua coisa. Assine como preferir. Mande seu texto para expatriadas@hotmail.com

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Visita de expatriada é assim...

Olá, X!
Escrevo direto do Brasil. Dias quentes e calorosos. Papos longos. Muita risada. Fofoca ainda em atraso! Comidas preferidas... como o tempero da saudade é gostoso!
Escrevo durante um breve intervalo, enquanto a água ainda passeia entre o pó e o coador, enquanto a família tenta dar conta dos compromissos em meio à visita de quem vem de longe. Uma coisa já tinha aprendido com outras expatriadas, a chegada de quem está ausente há tempos embaralha a rotina, faz toda noite ter um ar de sexta e todo dia parecer sábado.
Mas como ia dizendo, escrevo enquanto um diz ao telelefone que está pra chegar, enquanto outra dá de mamá, enquanto outra se divide entre as mil histórias e um livro-caixa, enquanto outro se prepara para sair...
Tem sempre um beijão, um abraço forte, um sorriso largo.
E tem msn, porque a vida é louca e conciliar nem sempre é possível. Porque o coração quase sempre está dividido. Porque sempre tem alguém pra sentir saudade...
Eu acho isso um bom sinal...

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Quase indo...

Olá, X!
Dia de arrumar a mala. Destino: Brasil. Saudade da família, da energia, dos amigos, da comida, do almoço de domingo, do bate-papo, das porções...
A estada vai ser rápida, mas tenho certeza que de altíssima qualidade.
Estou doida pra abraçar, beijar, ver, olhar nos olhos, conversar ao vivo...
O tic-tac tem sido tiiiiiiiic-taaaaaaac.
O interessante é que apronto a mala com uma sensação diferente, como diz o cara, nunca antes “vivida” na história dessa minha vida. A sensação é de uma turista rumo à terra natal.
Engraçado como a casa da gente pode ser em qualquer lugar, como a referência pode ser relativa e a identidade volúvel.
Já ouvi de tudo nesses dias que antecedem a ida: você não vai querer voltar, você vai estranhar tudo, você vai querer voltar voando, vai comparar tudo, vai odiar, vai amar e mais um monte de coisa...
Mas e daí?
O legal nessa vida é ter a chance de sentir e de matar a saudade. O que acontece nesse meio tempo, o tempo cura.
Mas preciso ir... como já disse, não tenho o melhor relacionamento do mundo com malas...

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Experimenta!!

Olá, X!
Ainda sobre a aventura da experimentação, acho interessante estender a conversa com algumas considerações:
Obedeça seu ritmo, respeite seus valores, ouça seu coração, confie em seus desejos, desconfie das receitas, mas permita opiniões.
Fuja dos modismos, encare os receios, calcule os riscos, pondere as possibilidades, vivencie os resultados.
Sendo assim, qual seria o objeto da experiência?
Tanto faz, nesse caso vale o percurso.
Vale dizer também que a experiência, mesmo que compartilhada, é um processo íntimo e pessoal.
O que vai sair disso tudo pertence a você. O que você vai fazer com isso depende de você. Mas saiba que a vida é causa e efeito.
A gente pode aprender a não ter medo de lobo mau, mas que ele é perigoso, isso ele é...

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Experimenta!

Olá, X!
A pergunta é: quem tem medo de lobo mau?
Eu sei que pode não fazer sentido, mas dado o avançado do relógio e a terça que variou entre deliciosas surpresas, horas de estudo, momentos de trânsito e flashes de alívio, sei que - no fim - você vai acabar entendendo.
As historinhas infantis ensinam coisas bem sinistras para nós mulheres: esqueça o sapatinho de cristal e espere pelo salvador da pátria, evite a floresta e sufoque a coragem, sofra - encare primeiro o sapo para só então ter direito ao príncipe.
E assim a gente cresce. Uma parte percebe rápido que estória é estória, mas tem uma turma que fica nessa de fantasiar a realidade.
Aí encontro um monte de gente pelo caminho com a bandeira do “não preciso disso”.
Essa bandeira é perigosa. Não só porque plastifica nossos sentidos, mas por nos afastar da aventura da experimentação.
Confesso que também tenho uma enorme dificuldade com relação ao novo. Sou resistente a sabores exóticos, novos empregos, vizinhança nova, novas pessoas.
Mas como meus pais diziam lá trás e meu marido insiste até hoje: experimenta!
E não é que às vezes eu gosto!
Então hoje, dada a canseira, vou me limitar ao “tenta só um pouco, vai!”

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Tem um tempinho?

Olá, X!
Não tem jeito, parece que a educação e os bons modos são diretamente proporcionais à quantidade de tempo. Tenho percebido que quanto mais tempo tenho, mais paciente, mais atenciosa e cuidadosa com o outro sou.
É triste ter que admitir isso, a falta de tempo rouba mais que a qualidade da vida, ela provoca um verdadeiro saque na boa conduta, zera o estoque de boa vizinhança a arrasa com as plantações de delicadeza e tolerância.
Espero que esse excesso de tempo que hoje preenche meu dia me ensine a viver bem - inclusive comigo - mesmo com a falta de tempo que um dia voltarei a enfrentar.
Espero que as lições aprendidas durante a abundância não me deixem na escassez.
Espero que aprenda a lidar melhor com relógios, agendas e contadores em geral e que a minha política pessoal não varie de acordo com os minutos a mais ou a menos.
Espero que o tempo não me deixe esquecer desse compromisso.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

A palavra foi emb...

Olá, X!
Passar por aqui todos os dias e trocar uma idéia é um exercício pra lá de prazeroso para mim. Mais que isso, é alimento. Normalmente, saio dessa conversa mais satisfeita com a vida, mais descontraída, mais feliz.
Escrevo de um lugar ultra confortável. A cadeira é acolhedora, à direita está a vista da piscina. Atrás, a cama aconchegante entre dois criados-mudos que sustentam abajour modernex e foto de quando decidimos que seríamos felizes para sempre. À esquerda, o closet. À frente, a foto da minha afilhada, minha jóia rara.
A luminária promove uma sombra bem charmosa. A papelada sobre a mesa sugere alguma programação para o próximo feriado. A impressora está de férias!
A cozinha está apagada. A TV em silêncio. O livro entreaberto. O marido chega logo, um logo que nunca chega.
Tomo um gole. Checo o celular. O Google me distrai, mas não inspira.
Como diria um amigo bem humorado, “tem dia que a noite é assim mesmo”.
Então é isso. A sexta foi bem cheia, muito cheia, aliás. Muita informação, muitas possibilidades de olhar, muitas alternativas, muita coisa pra pensar, mas só pra pensar...
Às vezes acontece isso comigo, a palavra tira folga. Ela não vem. Não adianta mandar memorando, exigir que compareça, ela some e não deixa contato em caso de emergência.
Fazer o que, não tenho poder sobre esse comportamento rebelde. Só posso aceitar sua ausência e contar com a presença em algum dia desses.
Enquanto isso...não espere nada, day off da palavra, lembra?

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

O diamante pode ser sempre verdadeiro!

Olá, X!
Os bate-papos sem intenção alguma são os que normalmente tiram minha alma do automático.
Dessa vez a culpa foi do diamante. Esse ponto cintilante passeava pelas nossas mentes, bocas e devaneios quando a paquistanesa perguntou: “quem garante que o diamante que você já comprou ou ganhou um dia é mesmo uma pedra preciosa e tem qualidade?”
Fomos unânimes, ora, quem garante? O cara lá com aquela lente, o dono da joalheria, a grife, o vendedor, o certificado de garantia, o preço, quem deu presente...
Com a autoridade de colecionadora ela simplesmente disse: “ninguém garante. A autenticidade da jóia é uma questão de fé. A coisa só é verdadeira, valiosa e importante porque você acha que é.”
E continuou, “pode ser que você nunca precise vender a peça, então jamais irá descobrir o valor real de mercado, então para você o tal diamante será tão valioso, mas tão valioso que quase não terá preço.”
Pera aí, acho sim que tem uma série de procedimentos que podem ajudar a garantir a veracidade das coisas. Mas fiquei pensando nisso...
No fundo, no fundo mesmo, a vida toda é uma questão de crença.
O que são o amor, a amizade, o dinheiro, a profissão, a religião senão pura fé? Crença nas pessoas, no sistema, na importância do ofício, na existência de uma energia supra...
A gente passa a infância e a adolescência aprendendo a acreditar que é possível sim caçar sozinha porque a gente é mais forte que o leão.
Lógico que tem sempre o craque em ensinar o avesso, que o ser humano não dá conta...mas sempre tem uma faísca que surge sei lá de onde e faz a gente crer que é possível sim, que não custa tentar, que vale a pena, que é assim e ponto.
Eu confesso que sou fã de diamante, mas sempre tive dificuldade em entender como se chega a um valor tão alto.
É... não é a coisa que é cara, é a crença que vale. É a fé que não tem preço e que faz a gente aceitar as coisas como dizem que elas são...
Não sei até que ponto isso é bom. Mas que eu gosto de diamante, eu gosto!

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Conversar é sempre bom!

Olá, X!
Não tem jeito, quando a gente cria algo, não importa o quê, quer mesmo é compartilhar o resultado.
Você faz um bolo, quer que as pessoas experimentem e gostem. Pinta um quadro, quer que a obra seja apreciada. Faz uma roupa, quer exibir por aí. Escreve um texto, quer que seja lido e assim segue a vida.
Com base nesse jeito exibicionista de ser, sigo pensando em formas de deixar esse espaço sempre mais interessante e útil.
Como a idéia é trocar experiência, mais dois destinos entram na nossa rota: Dicas de X! Espertas e Dicas X! de viagem.
O primeiro destino é para a X! - ou não, como diria Caetano - dar todas as dicas possíveis para ajudar a fazer dessa experiência algo positivo.
A segunda rota é para quem não perde a chance de voar por aí e adora compartilhar o que experimenta.
Conte mesmo. Vale tudo, lugares que você esteve como turista, como expatriada, como moradora, não importa. O que interessa é passar a informação adiante!
O contato é o de sempre:
expatriadas@hotmail.com
Então, puxe uma cadeira e entre na roda!

terça-feira, 14 de outubro de 2008

X! Entrevista. Crise Econômica.

Olá, X!
Dia de visita!Em tempos de crise financeira em um mundo altamente conectado fica a pergunta: até que ponto essa confusão mexe com a vida de Xs que estão pelo mundo? Chryscia Cunha, Differance Intercultural Consultants, fala sobre essa turbulência e frisa que todo momento difícil também é um período de oportunidades. Aproveite a conversa!

X: A expatriação de talentos indica, entre outros fatores, que a empresa está otimista em relação ao bom desempenho da economia. O sistema financeiro mundial em apuros pode incentivar uma queda no número de expatriações?
CC: As empresas ficarão mais cautelosas, já que muitas precisarão rever seus planos estratégicos de crescimento e investimento para os próximos meses.
Porém, acreditamos que o fluxo de expatriação continuará em ritmo de crescimento para países emergentes, tendência observada nos últimos dois anos.
Além disso, muitos executivos brasileiros que atuam no mercado financeiro de Londres e Nova Iorque, por exemplo, estão aproveitando a economia brasileira aquecida para regressar. Se lá eles enfrentam a queda dos mercados e o fechamento de bancos e de fundos de investimentos - com corte no número de vagas e redução na remuneração variável - aqui encontram um ambiente em que as empresas estão ampliando fronteiras e buscando talentos com experiência internacional para comandar suas operações.

X: Levando-se em conta que o suporte financeiro é um grande incentivo para a mudança, até que ponto uma forte crise econômica pode abalar o ânimo da família a ser expatriada ou que já vive no exterior?
CC: Em relação às famílias que já vivem no exterior, acreditamos que as empresas não farão cortes em relação ao suporte financeiro já prestado. O que pode acontecer é a redução do período de expatriação para diminuição de custos. Porém, tal medida deve ser cautelosamente pensada, pois isto implica em mudança nos planos de carreira do expatriado, incerteza para a sua família, falta de tempo adequado para repensar a repatriação e o cargo que este executivo irá ocupar quando regressar.
Tais medidas precipitadas podem gerar frustrações, o que, geralmente, ocasiona abandono da empresa pelo expatriado. Tudo isto acaba gerando grandes perdas financeiras e de capital humano para a empresa.

X: A internet permite que as informações cheguem sem problema, mas as emoções com relação às notícias podem ser distorcidas. Isso pode atrapalhar a adaptação dos recém-expatriados? Existe uma receita para lidar melhor com uma situação de tamanha incerteza?
CC: Para o executivo expatriado a principal incerteza é quanto ao planejamento de investimento e gasto da empresa. Muitos investimentos serão cortados, pois as linhas de crédito estão cada vez mais reduzidas e com juros altíssimos.
Em muitos casos, os executivos enviados para outros países com a missão de implementar projetos e de realizar reestruturações terão que esperar um momento de estabilização para fazer grandes investimentos.
Para os recém-chegados, a instabilidade do mercado econômico é mais um ponto a ser trabalhado. Além de estarem em processo de adaptação em relação à cidade, comunicação, locomoção e fatores culturais, têm que se preocupar em reduzir os gastos pessoais e poupar mais que o planejado.
Acreditamos que a melhor forma de lidar com isso é trabalhar esses pontos no acompanhamento de psicologia intercultural, suporte necessário no processo inicial de adaptação do expatriado e de sua família no novo país.

X: Com a dificuldade dos mercados já estabelecidos, podemos começar a vislumbrar novos destinos para expatriação? Quais seriam?
CC: Atualmente, os executivos de todo o mundo consideram as economias dos países emergentes como as mais atrativas para o desenvolvimento de suas carreiras. Em detrimento dos mercados desenvolvidos - Estados Unidos, Europa e Japão - elas oferecem melhores oportunidades de trabalho.
Os países que despertam maior interesse para o executivo global são os BRIC´s - Brasil, Rússia, Índia e China - que apresentam elevadas taxas de crescimento e internacionalização de suas empresas em expansão.
Outro local que tem atraído muita mão-de-obra qualificada brasileira e de outras nacionalidades é a Angola. O país foi assolado pela guerra civil entre 1975 e 2002.
Muitas construtoras brasileiras estão responsáveis por obras de infraestrutura. Não existem estatísticas exatas sobre a participação de brasileiros e de empresas brasileiras na economia angolana, mas a Associação de Empresários e Executivos Brasileiros em Angola - Aebran - fundada em 2003, calcula que nossos investimentos por lá ultrapassam US$ 5 bilhões ou quase 10% do Produto Interno Bruto do país.
Trata-se de um mercado emergente muito atraente para empresas e executivos de toda parte do mundo.

Por Chryscia Cunha - Differance Intercultural Consultants http://www.differance.com.br/

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Tem outra X em meu corpo!

Olá, X!
Tenho me achado muito estranha. Tenho me flagrado fazendo coisas improváveis, calma, nada que agrida meus valores...
Sabe, acho que o grande lance dessa experiência longe de casa é ter um olhar estrangeiro, ver as coisas de fora do aquário...
O problema é quando você não percebe que você não está mais percebendo a diferença, entende?
Assim, já me peguei fazendo tac-tac-tac com cabides, bebendo um balde de café, usando um biquíni ultra-mega, e agora estou numas de não suportar gente falando alto. Já não gostava, agora fico constrangida!
Pior é que tudo isso vai tomando lugar silenciosamente e suspeito que logo,logo vou descobrir que posso ter me transformado em uma X que eu já não sei de onde é, para onde vai, tampouco onde quer ficar.
Isso é complicado: ser uma X para sempre, não importa o lugar!
Mas se a gente está mesmo só de passagem por esse planeta, então melhor assim.
Pensando bem, problema mesmo vai ser se eu não me acostumar de novo com a moda praia brasileira. Já pensou o biquinão daqui em Ipanema? Aff...

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Barraco no salão.

Olá, X!
Semaninha difícil essa, não?
Fico pensando de que forma essa tormenta atinge o comportamento mais corriqueiro.
Olha só essa história. Uma brasileira foi ao salão aqui em Houston. Fez luzes. O profissional perguntou se ele gostou. A resposta: não.
A cliente esperava, como normalmente acontece no Brasil - segundo ela - ter a chance de falar que pensava em algo não tão loiro e assim remarcar um horário para retoque.
Mas o “home” ficou doido. Não deixou nem pagar a conta. Abriu a porta e pediu que saísse. Não satisfeito, mandou um recado por uma outra cliente: que a brasileira nunca mais aparecesse.
Eu pensei, gente, se fosse comigo de duas uma: ou eu já mandava o cara para aquele lugar ou virava as costas e adeus.
Uma outra possibilidade, que os americanos adoram - aliás, seria chamar a polícia.
O fato é que a brasileira ficou arrasada e repetiu uma frase bem comum entre expatriadas em apuros: “o-que-que-eu--fazendo-aqui. Preciso-disso?”
No fundo a gente precisa mesmo é de água e comida para sobreviver. Se a gente escolhe algumas coisas, como batalhar em outra cultura, é porque o básico não basta.
É lógico que a brasileira disse que o maluquete não faria isso se fosse uma americana. Sei lá, tem gente besta em todo lugar, além do mais o cara pode ter mil motivos.
Pode ter dinheiro na bolsa, pode ter perdido 18% nessa semana. 18% mais pobre em uma semana pode deixar o mais equilibrado piradinho.
Outra possibilidade: o cara pode ser desses profissionais que se acham artistas e não aceitam tratar o cliente como cliente, mas como espectador. Ele pode ter levado um chutão no traseiro, sei lá, tanta coisa pode ter acontecido.
A brasileira expulsa do salão falou em procurar a associação dos cabeleireiros e reclamar. Até que ela é fina, eu jogaria uma bela praga...
Falando do ponto de vista da brasileira - porque só tive acesso à versão dela - penso que o episódio pede uma reflexão mais no sentido da auto-estima. Penso no silêncio dela na hora, no fato de ela não ter tentado resolver tudo ali, não ter conseguido controlar a situação.
No lugar dela acho que teria a mesma reação, o espanto me paralisaria.
O problema mesmo é não ter o controle da ferramenta básica para exigir ser tratada com decência: o idioma. E quem enfrenta uma metralhadora só com pedras?
Diante disso, sugiro algumas estratégias: seguir com afinco no estudo da língua, se aprofundar na cultura – talvez aqui dizer que não gostou do trabalho seja mesmo inaceitável - ou não pintar mais o cabelo.
Sugiro as duas primeiras, porque poder cuidar da gente é bom em qualquer lugar do mundo, ?

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Que sujeitinho complicado!

Olá, X!
A gente aprende junto com as primeiras continhas que ser humano é todo aquele que pensa.
Um pouco mais para frente, dependendo do ramo de estudo, é ensinado que esse mesmo ser pode avançar e alcançar o status de indivíduo, desde que consiga se expressar. Normalmente é bem sucedido nessa etapa quem aprende a falar com uma certa coerência.
Mas é vivendo que a gente faz a grande descoberta, não basta ser indivíduo é preciso ser sujeito. É preciso se envolver, ser envolvido e influenciar.
Puxei o assunto porque acho que esses dias de terremoto financeiro têm - também - muito a ver com o comportamento do sujeito.
Todas somos bem crescidinhas para saber que esse negócio de passar a conta pra frente é bem esquisito. Que essa coisa de juntar o bolo e depois dividir pode ser perigosa e tem sérios riscos de se espatifar se alguém resolver enfiar a viola no saco.
Mas esse não é o foco, mesmo porque acho que o mercado financeiro – assim como a tecnologia – tem seu papel benfeitor.
O que eu fico pensando é que parece que estamos vivendo dias altamente contagiosos. Em que o sujeito se encontra pela metade, com a capacidade de apenas ser influenciado.
Falo aqui sobre a difusão do medo.
Pior que não é simplesmente sentir medo, é sentir medo de ficar com medo. Aí a gente se depara com pessoal estocando alimento, tirando todo o dinheiro do banco, praticamente dando ações que tem grande potencial de valorização. Comportamentos que fazem do ser um não humano, porque nem raciocínio é possível.
Eu sei que esse assunto é estranho, é difícil falar sobre isso porque não temos certeza da gravidade ou até que ponto essa crise é pior do que dizem.
Falam que medo é bom porque é o antídoto do risco, do perigo. Mas também pode ser venenoso quando embaralha os sentidos e confunde a consciência.
O duro mesmo é que eu não sei o que sentir.
Eu leio o Lula e ele se mostra tranquilo. Dizem que ou é fingimento ou é desinformação. Cada um, cada um...o que vejo aqui pelas bandas do tio Sam é que quem tem cabelo está de ele em pé.
Bem, eu acho que não estou com medo, mas ao mesmo tempo essa ausência de temor me deixa aflita, angustiada...com medo?
Vai entender a cabeça do sujeito!

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Eu e meu telefone dos Jetsons.

Olá, X!
Sabe aquele dia em que você tem que se organizar para dar conta da agenda? Pois é, hoje era um dia assim. Tinha que seguir uma escala para resolver as chamadas coisinhas da vida.
Mas tem uma coisa que altera pra valer os planos de quem está longe: MSN.
Esse troço é muito bom mesmo. Não é que esse telefone dos Jetsons - lembra da família do século 21? - então, não é que essa coisa de falar ao telefone e poder ver o rosto da pessoa ajuda a dar um fôlego pra quem morre de saudade.
Hoje perdi a noção do tempo simplesmente curtindo a minha sobrinha, conversando com a minha irmã e trocando uma idéia com os meus pais que estão saindo de viagem.
Foi uma delícia.
Em meio às críticas de que a tecnologia é uma das grandes responsáveis pelo colapso de estruturas que vão do relacionamento ao mercado financeiro, fica meu elogio para o aparato tecnológico usado para o bem.
Nunca pensei que fosse dizer isso: obrigada Bill Gates.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Gente, que coisa!

Olá, X!
Eu não sei se também acontece com você, mas, às vezes, eu fico meio enjoada de gente.
Não, não é de todo mundo.
Sabe, essa condição de estrangeira é danada.
Quem está longe quer se enturmar, quer trocar experiência, quer conhecer o máximo possível da outra cultura e também não quer se sentir sozinha, então não perde a oportunidade de estabelecer laços com quem vai encontrando pelo caminho.
É como uma esponja recém-saída da embalagem que vai absorvendo, aceitando tudo. Em um cenário novo acho até normal a gente se propor a ser super-ultra-mega receptiva.
A questão é que para se relacionar – especialmente em um mundo inexplorado - você tem que ter padrões ainda mais maleáveis, nem sempre isso acontece.
O fato é que chega uma hora em que você já se sente mais confortável na novidade e se permite pensar sobre a qualidade dos relacionamentos.
Aí as coisas não são tão simples, parece que o verão acaba, as férias chegam ao fim.
Eu ainda não sei se alguns comportamentos e comentários irritam pela intimidade ou pela distância. Quero dizer, pela proximidade com a nova cultura ou pelo distanciamento dos próprios costumes. O que era normal, já não é. O insuportável começa a ser aceitável...
Sei lá.
Ia continuar... mas não, não vou ceder à deselegância.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Desculpe, não deu...

Olá, X!
Sei que quando estamos longe a noção de espaço-tempo é alterada drasticamente.
Você, como eu, não conseguiu prestigiar a normalmente divertida - para não ser deselegante - propaganda eleitoral no rádio e na TV.
No meu caso, acompanhei as notícias só pela internet, sem o calor de frases emocionadas em comícios. Foi triste - para não ser deselegante.
Você, como eu, não conseguiu votar nesse domingo.
Com tantas opções maravilhosas, você, como eu, deve ter ficado triste - para não ser deselegante...
Mas vamos à parte prática da vida.
Se você tem título eleitoral inscrito no exterior já deve saber que só está obrigada a votar nas eleições presidenciais. Então está livre de justificativas.
Se você não mexeu no seu título, se continua - portanto - com domicílio eleitoral no Brasil, tem até 60 dias para justificar a ausência. Mais detalhes aqui.
Só para lembrar, quem não justifica tem problemas para obter passaporte, RG, participar de concurso e concorrência pública e para conseguir documentos em repartições diplomáticas, entre outras coisas, para não ser deselegante.
Resta saber se você vai ter que passar por tudo isso de novo no
fim do mês.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Tic, tic, tic, tic...

Olá, X!
Impossível estar nos Estados Unidos e não querer tagarelar sobre falências, desemprego, desespero. Aliás, da boca dos formadores de opinião ou sai recessão ou sai Sara Palin.
Assistir - desse ponto de vista - o desenrolar da crise tem sido uma experiência interessante.
A manchete mais comum dos programas de TV, por exemplo, é: seu dinheiro está seguro?
É pensar muito no umbigo diante de uma situação tão macro, não é?
Mas no fim das contas é isso que interessa para o povo aqui. Será que sobra dinheiro para renovar o leasing? Será possível refinanciar a casa? Será possível continuar consumindo, indo, indo...?
Outro dia, no mercado, meu marido chamou a atenção para uma velha conhecida: aquela maquininha de remarcar preço.
Tic, tic, tic, tic. Bem anos 80 e 90 mesmo.
Mas acho que só brasileiro, e até uma certa idade, sente arrepio com o barulho. Conheço gente que ainda sofre com esse som e acha mais grave que o de motorzinho do dentista.
Enfim...o passado bate à porta. Nenhuma grande novidade.
Ah, lembra daquela história de cortar zeros?

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Sangue do meu sangue.

Olá, X!
Longe assim parece que a gente presta mais atenção em coisas e valores da vida.
Sou do tipo que acredita que a família é a base do tecido social, seja ela configurada como for.
O familiar é, por definição, algo conhecido, algo próximo e seguro. Mas nem sempre o dicionário tem razão.
Tem família que é uma tragédia só. Começa errado, vai pelo caminho torto e se espatifa.

Tem família que tenta muito, mas não consegue.
Em casa, já chegamos naquela fase em que se percebe que na verdade é a família que marca nosso sangue e não o sangue que garante os laços.
É uma descoberta deliciosa. É a prova de há união porque os pais amam de fato os herdeiros, os irmãos têm amizade, genros e noras já são filhos, sogro e sogra pais, cunhados e cunhadas estão no fundo do coração, sobrinhos tudo de bom...

A família segue porque se gosta, porque vale a pena, porque é bom.
Mas conheço gente que não curte a própria família e adota outro grupo que lhe pareça mais familiar. Ok.
Seria simples se o ente não mais querido - ou que não quer mais - partisse dessa para melhor, no sentido figurado, claro.
Mas não é bem assim.
Fica aquele baita excesso de bagagem.
Por que?
Porque as pessoas querem ser amadas, até aí eu me incluo.
O problema é querer ser amado por quem tem a incapacidade de amar. Sim, quando a gente cresce descobre que tem gente que não ama, simplesmente não ama.
Eu não sei onde essa conversa vai parar...
Eu só sei que ter família é extraordinário, ser feliz com ela é fantástico e provocar sofrimento não é algo para se orgulhar.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Chora não.

Olá, X!
Sempre achei que o choro é uma coisa grave.
O choro chama a minha atenção, me assusta. Às vezes me constrange.
Para mim uma cena com choro é sempre urgente e é sempre muito dramática, talvez porque o choro, no meu caso, não seja abundante.
Não que não tenha vontade de chorar, lógico que tenho, mas quando ele vem é porque muita coisa se rompeu, é como um dique que segura até quando dá...
Pensando bem, não foram lágrimas e soluços que me fizeram parar para pensar, mas o motivo.
Foi uma cena forte e delicada ao mesmo tempo. Uma colega de turma caiu em prantos quando a gente batia um papo descontraído sobre a dificuldade em transmitir idéias e sentimentos em uma língua estranha.
A tarefa dela não tem sido fácil. Divide as 24 horas do dia entre casa, marido, filhas, trabalho como pesquisadora, estudante de mestrado, além de dedicar um grande período no aperfeiçoamento do inglês.
Mas não é esse cansaço que entristece. Nas palavras dela: é o sentimento de parecer idiota que fere a alma.
A gente já conversou outras vezes aqui sobre a importância do próprio idioma, a caixa de ferramentas para lidar com o mundo. Também é parte do nosso RG.
Claro que essa X vai ter que tratar essa ferida linguística, só não sei se vai ser fácil...
Não, não quero ser antipática. É que fiquei pensando que encontrar a palavra certa para passar exatamente o que pensamos e sentimos é uma tarefa árdua mesmo na nossa primeira língua!
Freud já dizia isso...
A questão, então, é como encaramos tudo isso. Às vezes pode ser interessante ter uma espécie de licença para parecer idiota, eu disse parecer...
O que eu acho é que nessa história entra tanta coisa, desde a impaciência do ouvinte nativo até nossa arrogância em supor que vamos tirar de letra qualquer desafio.
O fato é que raramente temos cuidado com a palavra. Só acordamos quando ela nos falta, quando nos trai. Aí, ou a gente cai no choro ou permite mais gargalhadas...