terça-feira, 30 de setembro de 2008

Sobre sacolinhas, mochilas e super malas.

Olá, X!
Tenho pensado muito em mala, talvez por esse momento vai e vem da minha vida.
O fato é que fazer mala virou uma atividade que exige tanta especialização que dá até medo. Eu tenho medo de mala, principalmente das pequenas.
Sabe que eu procuro melhorar sempre...mas até hoje não sei se é melhor enrolar ou dobrar as roupas. Se é melhor espalhar os sapatos ou colocar nos cantos, se é melhor colocar as calças por baixo, ir recheando a mala e só depois pôr as pernas das calças por cima, também ainda não encontrei a melhor forma de levar as calcinhas.
Conheci uma menina que dizia que só levava as piores calcinhas nas viagens. A receita: ela ia usando e deixando pelo caminho. Já ouvi dizer que tem calcinha dela na Coréia do Norte. Como foi parar lá? Não me atrevo!
Outro dia comprei uma mala de mão. Descobri que só a mala pesa quatro quilos. Sobrou um quilo para minhas coisas. Eita mala mala.
O pior é que mala é como carro ou computador. Mal você compra o topo de linha e já tem outra ultra mega mais fácil de levar. Eu desisti, porque afinal mala é um troço estranho de guardar, estranho de lidar.
Tanto que eu trabalhei em um lugar que tinha um concurso: o mala do ano. A premiação era sempre no dia da festa de confraternização. O mala, eleito pelos colegas, recebia faixa e tinha que dar volta olímpica pela empresa. Cena ridícula.
Ridículo foi um chefe que recortou um anuncio da Louis Vuitton e colou na testa: “eu sou mala, mas sou chique”, disse o eleito.

Confesso que tinha mala que era só uma sacolinha. Tinha aquele que era, na verdade, uma mochila, daquelas que parecem uma mala, mas não são, aliás, te ajudam...
Mas mala é uma coisa necessária, não é mesmmm?
Então quando tenho que me relacionar com ela eu respiro fundo, me abasteço de paciência e encaro peça por peça, controlo o peso e faço o doloroso exercício da escolha: jeans mais claro ou escuro? Camiseta ou regata?
Tem situação mais desagradável?

Tem sim. Encarar gente mala é pior. Então fico com as de rodinha, que pelo menos não falam...

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Tempo rei.

Olá, X!
Parece que os dias têm tido horas a menos. Tudo tem passado muito rápido. Parece que tudo é de relance.
De repente eu acordo. De repente já estou no meio da manhã. De repente já é depois do almoço. De repente é fim de tarde. A noite baixou faz tempo. A madrugada já anuncia o dia seguinte e, sem que a digestão esteja completa, já é hora do café da manhã.
Tem um monte de recheio entre uma hora e outra. Mas tudo tem sido tão rápido, tão express. Não sei o que está acontecendo...
Não dá tempo de pensar, de sentir...
Não dá tempo de mastigar 20 vezes, sentir o gosto, engolir.
Não tem dado tempo.
Sem tempo falta inspiração. Falta cuidado com as palavras, gentileza com o texto, atenção com o raciocínio.
Quando não há tempo a alma fica anêmica, o espírito desnutrido.
Sem tempo sobra vazio. E o vazio é ladrão do tempo.
Sei do tempo de plantar, de colher, de recolher, de sorrir...mas não sei desse tempo que se apequena, nunca ouvi falar de greve do tempo...tempo de menos.
Que escassez! Que angústia. Bom, vou dar tempo ao...melhor economizar.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Dzzzzzz!

Olá, X!
Muito interessante quando se tem acesso ao lado de lá do espelho. Estava lendo uma
matéria, dessas de domingo, que conta a experiência de um expatriado alemão no Brasil, especificamente em São Paulo.
Interessante que as dúvidas, os receios - ou pavor, como preferir – os micos e as boas surpresas são comuns, independente da origem do expatriado.
Aí veio a fala de uma especialista em tentar facilitar a vida do estrangeiro."O que tentamos fazer é dar todo o apoio psicológico para atenuar o choque cultural. O importante é que o estrangeiro se acostume com São Paulo o mais rápido possível, para poder render no trabalho.”
Que somos mais um número ou uma cifra, não é novidade nem aqui, nem lá longe. O interessante foi ouvir o termo “tentar diminuir o choque”.
Aí pensei, meu...choque é coisa que se leva ou não. Ou você se protege ou leva choque. Ou você evita ou leva choque. Não tem meio termo.
O que pode ajudar é saber que você vai sim levar um choque. Pode ser um baita choque ou só um tremelique. É normal assustar, é normal doer, é normal reagir meio que sem pensar.
Concordo que levar choque é mesmo um saco. Conheço gente que tem raiva de levar choque, fica com ódio até!
Mas vale lembrar que esse choque “expatriático” não mata! Pode ferir a alma, sim. Pode desfigurar uma relação. Pode derreter valores. Pode bloquear os sentidos por um período. Pode ate te tirar do ar por uns instantes, mas não mata!
Se é isso, não seria um desperdício enfiar os dedinhos com luva na tomada?
Então cuidado de lado. Que venha a descarga!

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Sobre o diferente e a diferença.

Olá, X!
Às vezes gosto das entrelinhas. Principalmente daquelas que não são de propósito.
Hoje umas dessas, boba até, me devolveu a postura retinha em meio à uma aula sobre interpretação.
Um aluno árabe não conseguia entender por que tinha errado uma questão. Para ele, Tula, personagem principal de O Casamento Grego, não estava sendo irônica ao falar sobre as valiosas lições que aprendia nas aulas de Grego. Não sei se você viu, a cena é aquela em que o professor diz que se fulano tem um ouro e cicrana tem nove, então logo poderão se casar.
Eu fiquei pensando por que o aluno não havia encontrado a ironia ali. Era uma cena fácil, simples. Não para ele. Não para a realidade dele.
O assunto passou. O cara é inteligente e logo percebeu a diferença. Mas fiquei com aquilo na cabeça. Quantas vezes a gente nem percebe que o mundo vai além da esquina, além da noção pessoal de situações e sentimentos? Quantas vezes não magoamos, ferimos, humilhamos sem ao menos perceber? Quanto mal-entendido não poderia ser evitado.
É estranho porque não tem relação com preconceito explicito ou subentendido. É mais grave. Está relacionado à falta de consciência, de atenção, de cuidado, ao excesso de egoísmo.
Lembrei de outro “causo”. Da professora paquistanesa que ficava irritada com o fato dos americanos nunca saberem onde estão as informações básicas de um passaporte. Ela só ficou mais calma depois de entender como era difícil para o americano médio conhecer um passaporte. Afinal, geralmente tem passaporte só quem sai do país, ?
O novelo foi diminuindo até eu resgatar
Anais Nin. A expatriada famosa, francesa de nascimento e americana por decisão, resumiu esse meu dia assim: não vemos as coisas como elas são, mas como nós somos.
Acho que ter isso em mente é um grande alívio...

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Com a palavra: outra X!

Expressão da Saudade.
A saudade é uma dor indescritível. Sabemos que é passageira. O coração dói. Fica apertadinho. As pessoas queridas vão aparecendo em nossas mentes e as recordações jorram como um fluxo contínuo que não podemos ou conseguimos voluntariamente interromper.É o curso da vida que segue para que possamos aprender e crescer com as experiências. O cotidiano vai nos permitindo diminuir esta torrente de imagens que insistem em brotar como 'flashes' rápidos, como um filme em super oito.É assim que estou me sentido... Apenas a perspectiva de não encontrar em um tempo hábil as pessoas queridas que fazem parte de nossas vidas já causa uma centelha que está prestes a explodir. É nestes momentos que entendemos o quão importante são as pessoas para nós. Cada contato, cada sorriso, cada emoção são cenas que simultaneamente vão nos levando a contar nossa trajetória, nossa história. Que bom sabermos e entendermos que cada etapa de nossas vidas são ciclos que se abrem e se fecham para vivenciarmos o espetáculo que é o viver... Sou grata ao universo por me possibilitar esta invasão noturna que me ilumina a mente e me faz despertar para contar aos outros como é este sentimento ... a saudade. Ah!!! Isto sim é um legado que deixamos para toda a eternidade. Uma sensação de liberdade de expressão que só nós podemos descrever e transmitir... É única, é nossa, nos pertence por inteiro...Obrigada por existirem em minha vida. Sou grata a cada um de vocês por esta oportunidade de descrever a dor da saudade e a saborosa recordação das lembranças.Estas palavras são dedicadas, principalmente à minha filha Mariana - amor da minha vida e à todas as pessoas que me possibilitam o jorro de sentimentos que insistem em saltar da mente para as minhas mãos em um seguimento contínuo de letras que se combinam e se transformam em poesia.
Vania Alcantara, Houston - EUA

Conte seu "causo" ou sua coisa. Assine como preferir. Mande seu texto para expatriadas@hotmail.com


segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Andança.

Olá, X!
Como já comentei aqui, nas últimas semanas tenho me dedicado a sondar as características que fazem de nós seres humanos.
Falar, pensar, lembrar...E no rastro das inúmeras histórias levantadas pelo Ike, mais uma qualidade humanóide: a maldade.
O “causo” que ouvi: fila imensa no posto de gasolina. Uma senhora, que chamarei de tonta, enche o tanque. Em vez de estacionar o carro e assim liberar a bomba antes de pagar, não move o veículo. A história seria basicamente de pura falta de noção do outro não fosse um detalhe. Uma pessoa reclamou. Aí a maldade entrou em cena. A reação: “só porque você reclamou, vai esperar mais cinco minutos. Não estou com pressa.” E a tonta ficou dentro do carro emperrando a fila, pode?
A questão é, a maldade, por ser uma construção cultural, pode variar de acordo com a geografia?
Pelo exemplo da motorista, não. Talvez mude o requinte, o grau, mas o objetivo: ferir o outro, independente do jeito e trejeito, permanece.
Então, se o pior do ser humano resiste às fronteiras, por que tanta andança por aí? O que ouvi: porque outra coisa que faz de nós humanos é a idéia de futuro, a esperança! Só por isso vou seguir viajando...

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Paciência.

Olá, X!
Muita gente ainda continua sem luz por aqui, quase metade da cidade. Na tv, as imagens ainda são de gente nas filas à espera de gelo e água potável. Os alojamentos seguem lotados e as escolas fechadas. Um dos maiores shoppings da região, com as grifes mais badaladas, está fechando quatro horas mais cedo, acontecer isso em um país pautado pelo consumo é porque a coisa foi feia mesmo.

O Ike matou 27 pessoas no Texas. O governo do estado já assinou contratos no valor de US$ 150 milhões para recuperação da região.
Aos poucos a vida para a outra parte da cidade vai voltando ao normal. Os dias têm sido de limpeza. Árvores aparadas, fiação levantada, mercados reabastecidos e reabastecendo, restaurantes abertos. O período do toque de recolher foi reduzido de nove para seis horas.
Os museus estão reabrindo, mas os teatros, outra marca registrada de Houston, ainda estão apagados. É que estão localizados em uma das regiões mais judiadas pelo Ike, o centro.
Resta saber quando o ânimo e a coragem do pessoal será restaurada.

Os moradores de Galveston, no litoral do Texas, ainda não podem voltar para ilha. A devastação por lá foi total e ainda tem gente sendo resgatada.
Mas, confome a água e a poeira vão baixando, o lixo vai aparecendo. O Xerife da cidade está tendo que explicar por que, apesar da ordem de evacuação, não permitiu que 1000 presos fossem retirados da cadeia de Galveston. A resposta, o prédio foi construído para aguentar um furacão categoria 5, o Ike foi 2, e agora, diz o homem, essas pessoas estão em situação melhor que a dos "moradores de bem". Então tá.
Enfim hoje é sexta de verdade. Mas uma sexta diferente. A cidade está em outro ritmo. O trânsito está complicado, com muitos semáforos ainda piscando no amarelo. O interessante é como o povo se organiza. Uma turma por vez em cada canto do cruzamento. Não tem buzina. Só muita paciência.
Paciência é a senha mesmo. Para tudo. Paciência com a gente, com os outros, com a vida. Paciência.

Foto de LM Otero: AP

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Meu relógio pirou!

Olá, X!
Não sei se já aconteceu com você. Mas desde sexta passada parece que vivo em um loooongo dia. Parece que desde sexta é sexta. Interessante é que alguns aspectos da rotina básica seguem intactos. Tenho dormindo durante a noite, feito as refeições nos horários tradicionais, etc e tal.
Mas parece que estou meio fora do grande relógio da vida. É como se você perguntasse que horas são? E respondessem: agora. Sim a hora é agora, mas não faz sentido a resposta.
Até ontem não sabia ao certo que dia era do mês, nem da semana, mesmo porque na minha cabeça estava decidido que era sexta.
Fiquei pensando se essa confusão com o calendário está relacionada à pane no sistema de energia. Se for isso, estou mesmo lascada. Os dias são ditados pela tecnologia, pela informação, pelos compromissos, não pelo Sol que nasce e se põe...
Para ajudar nessa aflição, recebi de longe um convite vencido para um ciclo de palestras. Tema: o que é humano hoje?
Na preguiça respondo: é o ser que fala.
Mas depois desse furacão, dessa confusão no meu relógio sócio-biológico, dessa coisa de não conseguir direito dar nome ao que se passa, ao que se sente, fico pensando que a resposta já não é tão simples assim faz tempo.
Pensando bem, não basta os furacões que a gente cria na nossa vida. Às vezes é preciso um furacão de verdade mesmo para espantar a poeira, sacudir as certezas e exigir uma reconstrução. Aliás, o que é verdade?
Ihh... esse Ike...

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Ike em detalhe.

Olá, X!
Um amigo pediu para eu dar mais detalhes sobre meu primeiro contato com um furacão bravo. Então tá.
A temporada de furacões no Texas começou em primeiro de Junho. Já passaram por aqui Arthur, Bertha, Cristobal, Dolly, Edouard, Fay, Gustav, Hanna, Ike. Como já disse, Edouard foi o meu primeiro furacão. Um contato que não passou de: “nossa, só isso?”
Depois de enfrentar o congestionamento nos corredores de água e comida enlatada, depois de ver que furacão pode ser só uma garoa e de perceber que as pessoas estão meio cansadas de tanta ameaça decidi que também não iria embarcar no que chamam por aqui de indústria do furacão.
Com o Ike seria assim, não fosse um detalhe: o estrago em Cuba e no Haiti, onde deixou pelo menos 75 mortos. Além disso tinham as fotos do satélite. Eu tenho medo daquela imagem cinza, daquele olho grande...
Aí começou.
Terça-feira: o governo do Texas manda os moradores do litoral deixarem suas casas.
Quarta: Os canais de tv suspendem a programação normal e dão espaço pleno ao fenômeno.
Quinta: Ike é o tema das aulas na universidade.
Eu realmente não acreditava que estava em risco. Eu e meu marido decidimos não deixar a cidade. Fomos ao mercado, como todo mundo. Água, pilha, vela. Já que enlatado só desce mesmo em furacão, o estoque feito antes do Edouard estava intacto.
Sexta: tentamos almoçar em algum lugar. Às três da tarde já estava tudo fechado.
Passamos o dia grudados na tv.O avanço da maré avisava que o Ike não deveria deixar a categoria 2. Às sete da noite já víamos os repórteres chacoalhando em Galveston.
Pensamos que dormindo a história acabaria logo. Capaz! O balanço das janelas nos expulsou da cama. Como o conselho é ficar em locais fechados, montamos acampamento no banheiro.
Dica de quem tem experiência: leve com você - além do kit sobrevivência, água/comida/ lanterna - mochila com documentos e sapatos, caso os estilhaços de vidro se espalhem pela casa. Animador, ?
E no banheiro ficamos umas quatro horas.
Um amigo me perguntou se tive medo. Não sei dizer. Fiquei pensando se o vento levasse o teto. Sabe aquela imagem da vaca voando? Não que eu tenha vaca em casa, mas aquela cena do Twister é simbólica. Tudo pelos ares...
As rajadas é que assustam. Por várias vezes o vento diminui, o barulho fica longe. E de repente vem um estrondo. Parece trem fantasma.
Não me atrevi a tentar ver algo, acompanhei tudo pelo meu mp3 a pilha. Dos estúdios de tv, apresentadores e repórteres , em rede com as rádios, tentavam traduzir imagens em palavras.
O conselho mais interessante foi de um meteorologista sênior que sugeria distrair a criançada, porque o som do vento não era nada agradável. Depois dessa, aí que não larguei o radinho.
Lá pelas cinco da manhã tudo acalmou. Calmo até demais. Nenhuma sirene. Ninguém falando. Nem pingo d’água. Já estávamos sem o básico. Torneira seca e geladeira desligada.
Andar pelos corredores totalmente escuros do condomínio logo após um onze de setembro - mesmo que sete anos depois, mesmo que por outros motivos - não é nada agradável.
Na rua, raízes para o alto, semáforos - os que resistiram - piscando.
Deu uma tristeza. Profunda.
Água continua só engarrafada. Gasolina continua 50 centavos mais cara, fora a fila. Ainda sem tv a cabo. Internet emprestada. Todos continuam suspeitos. Toque de recolher à noite, pelo menos até sábado. Escolas fechadas. Comida enlatada? Vai seguir estocada. É que a tal temporada só termina em 30 de novembro.

Em tempo, o próximo é Josephine.
Foto de um leitor do jornal The Houston Chronicle.



terça-feira, 16 de setembro de 2008

Eita homem bravo!

Olá, X!
A terra que manda o pessoal pro espaço ficou ilhada. Só consegui uma internet capenga agora.
Minha família passou pelo Ike sem feridos, nem danos, nem traumas.
Depois da sexta estranha, o sábado esquisito. O furacão chacoalhou as portas e janelas do meu apartamento por umas três horas. O vento de 150 km/h levou a nossa noite de sono, a água e a energia elétrica.
Tínhamos nos preparado para um período assim, que na minha cabeça não passaria de algumas horas.
Sem infra, com prefeito dizendo que luz era assunto da companhia de energia e com toque de recolher das 9 da noite às 6 da manhã, decidimos avançar para Dallas.
Foi bom, água quente, gelo, mas pouca notícia.
Voltamos assim que o básico foi restabelecido.
Combustível ainda é raro. Chegamos a pagar US$ 4,08 por galão. Antes do furacão estava em torno de US$ 3,60.
Interessante foi ver o talento na arte de estocar. Não satisfeitos em abastecer o tanque, vi fulaninhos e fulaninhas enchendo tambores e mais tambores. Mas temas como divisão e redução do consumo parecem não entrar em pauta para algumas pessoas nem quando a vaca voa!
Bom, o fato é que tanto vento me deixou confusa. Apesar de achar que Ike era um nome masculino, disse que esse Ike era uma mulher. Um engano. Me esqueci da Hanna, que passou sem fazer barulho. Então, só para constar, esse Ike é homem e dos bravos! Vixe!

PS. O prédio da foto é o mais alto de Houston, JP Morgan Chase, 75 andares. Todas as janelas quebradas. Não, não é brincadeira de mal gosto...

Foto de James Nielsen: Chronicle - Centro de Houston - 13.09

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

O furacão apronta. Eu fico de castigo...

Olá, X!
Tentei almoçar por aí, tudo fechado, de restaurante a posto de combustível, de mercado a shopping center. Nas janelas, tapumes de compensado. A cidade está vazia, vazia.
Passei o resto do dia grudada na tv. Nunca acompanhei por tanto tempo assim a viagem de alguém. Vi a Ike – sim é uma mulher – avançar a cada minuto. Aliás, dizem por aí que os furacões mais perigosos têm nome de mulher...
Pela tv acompanhei o congestionamento nas estradas. Ontem, a viagem entre Houston e Dallas, que leva umas 4 horas de carro, chegou a ser feita em 12. Vi também a polícia passando de casa em casa para ter certeza que as pessoas tinham deixado os locais considerados de risco. E ainda vi o drama dos pobres. Saber que a casa pode sair voando essa noite, ter que ir para abrigo...
Além do vento, da enchente, dos estragos, dos feridos...o governo também tem que ficar de olho nos oportunistas. Então, toque de recolher! Minha região ficou fora da lista, mas quem se arrisca a sair? Vai tomar no olho do Ike! Estou de castigo... É, porque ter que ficar em frente à tv, vendo um urso morfético
infernizar a vida do repórter de plantão em pleno hurricane, é mesmo um castigo!
Foto de Smiley N. Pool: Chronicle - Houston 11.09

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Adeus escova...

Olá, X!
Agora o furacão está me deixando de cabelo em pé. O negócio é fazer o que as “otoridadi” mandam: meu kit já está ok, mas não, não evacuei a cidade.
Aliás, ô palavrinha ordinária para o contexto, hein?
Uma amiga - em bom carioquês - diria, tem que evacuar porque esse furacão vai dar a maior mer...!
Eta natureza sábia. Chega uma hora que ela cansa, aí manda todo mundo sair.
As bombas de gasolina viram cambalhota de tanto cuspir combustível!
As estradas lembram feriadão em Santos.
A criançada fica feliz da vida porque não tem aula.
Por falar nisso, um colega de classe do Kuwait sugeriu aproveitar o dia sem universidade para um churrascão na sexta. É que esse furacão pra ele é um ventinho, ?
Mas o negócio é comprar pilha, deixar a lanterna por perto e rezar pra que ninguém fique ferido.
Se por acaso eu não aparecer nos próximos dias...caiu a rede de energia - ESPERO!

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Esse furacão me deixa zonza!

Olá X!
É a primeira temporada de furacão que eu pego na minha vida. Já enjoei. Cansei desse negócio de um alerta de desastre por semana. Quem consegue viver nessa situação de tragédia iminente?
É um ufa atrás do outro.
Ok, prefiro que continue assim, só alerta, só ameaça.
Mas, para mim, “já deu” esse clima de pavor que se instala dias antes da chegada do bicho e a novela que se faz em torno dele.
Com a TV, já aprendi todos os nomes: começa como tempestade tropical, vai para tornado, aí vem o furacão de 1 a 5. Também já peguei várias dicas ultra-mega-exclusivas sobre a melhor forma para se preparar para a visita. Desocupe a varanda, proteja as janelas. Se tiver que deixar a cidade, não esqueça do seu animal de estimação...
Tem gente que prefere acompanhar os sites especializados que trazem zilhões de fotinhos coloridas, números, projeções e pouco juízo de valor.
Ah, tem ainda a tal cartinha do condomínio em que moro lembrando que eles não se responsabilizam por nada, nossa que novidade!
Mas a natureza é assim. no caminho do “home”, eu que saia da frente! Aliás, preciso ir. Vou atrás do kit água-lanterna-angu-mochila.
Espero que seja só mais um treinamento...

terça-feira, 9 de setembro de 2008

X! Entrevista. Adaptação ao Diferente.

Olá, X!
Com uma bagagem que inclui a própria expatriação, a psicóloga Andrea Sebben fala sobre assuntos bem conhecidos de quem está longe, como medo e solidão. A profissional, especialista em ajudar o brasileiro estrangeiro a ser bem-sucedido lá fora, trata das dificuldades da expatriação e sugere caminhos para que essa seja, sim, a melhor viagem da sua vida. Aproveite!

X: O seu trabalho é uma prova de que as empresas estão empenhadas em investir na adaptação do expatriado e sua família. No que se refere ao profissional, ele e a família conseguem ter a noção dos desafios pessoais dessa experiência ou a maioria ainda subestima o futuro dia-a-dia em uma cultura diferente?
AS: Acho que a grande maioria ainda subestima as dificuldades da expatriação. Há algumas razões para isso, no meu ponto de vista. A principal delas é defender-se de seu próprio medo e angústia, afinal de contas, não se pode falar em migração sem falar em medo e insegurança. Portanto, menosprezar as dificuldades é uma forma também de sentir-se mais seguro e no controle da situação - o que é praticamente impossível. Migração é risco e é ambivalência também. Lidar com esses aspectos é muito difícil mesmo. Outra razão é a quantidade de aspectos burocráticos que precisam ser resolvidos não deixando tempo para uma reflexão mais consistente.

X: Assim como há pessoas que não possuem determinados talentos, é possível dizer que há profissionais que não têm e não conseguirão desenvolver um perfil para a expatriação?
AS: Sim, é possível dizer isso à luz da psicologia Intercultural, que define as personalidades migratórias. Existem pessoas que são naturalmente bem-sucedidas na migração por terem facilidade em criar vínculos, em experimentar coisas novas, em adquirir um novo idioma e, principalmente, por que conseguem participar de grupos muito facilmente. Fazer parte de uma comunidade e vincular-se ao país hospedeiro são cruciais para o expatriado - o que explica tantos grupos de expatriados ao redor do mundo.
Outra personalidade é aquela que sofre com a separação, que tem dificuldade em criar vínculos, em sentir-se parte do grupo, em aprender um novo idioma, em experimentar novos alimentos, enfim. Essa sofre na partida, durante a expatriação e quando volta - pois uma vez que se estabelece na cultura estrangeira, sofre demais também ao retornar ao país de origem.


X: No seu livro "Intercâmbio Cultural:um guia de educação intercultural para ser cidadão do mundo" a senhora fala sobre stress aculturativo, desentendimentos, gafes e retorno ao país de origem. Quais seriam as principais características da família e da escola preocupada em formar um expatriado feliz?
AS: Nesse caso você está falando do estudante estrangeiro numa casa de família hospedeira. Acho que tanto os hospedeiros como as escolas deveriam fomentar a amizade com nativos - e não com estrangeiros. Tenho uma certa resistência às escolas americanas - ou escolas internacionais como chamamos aqui no Brasil - que fazem uma grande reunião de estrangeiros e falam outro idioma que não o português. É praticamente a criação de um gueto, porém, de estrangeiros.
O estudante pode aprender a apreciar a escola, o idioma e a cultura local e é nesse sentido que se criam vínculos interculturais - na diversidade. De que adianta, por exemplo, ir aos Estados Unidos e frequentar uma escola de brasileiros e falar português? Quando isso acontece aqui no Brasil acho que todos perdem, sobretudo a criança.

X: Qual a sugestão para a expatriada que ainda não conseguiu identificar as belezas e delícias dessa experiência?
AS: Abrir-se definitivamente. Não se entra na experiência intercultural com uma visão fechada, etnocêntrica, que nos convida apenas à comparação e ao julgamento. Enquanto não conseguirmos apreciar as pessoas, os sabores e as paisagens a partir do contexto local, não conseguiremos compreender, perceber e apreciá-los tais como são.


Andrea Sebben é psicóloga, mestre em Psicologia Social e membro da IACCP - International Association for Cross-Cultural Psychology. www.andreasebben.com.br

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Delícia de viagem!

Olá, X!
Fiquei pensando que desbravar uma cultura diferente, seja ela estrangeira ou não, poder ser similar à experiência de sair do corpo. Você, deprimida, deve estar pensando: isso mesmo, sou uma morta-viva.
Não! Não é bem assim.
A fulana está dormindo ou está em coma e sai por aí flutuando. Adoro ler sobre isso, tenho preferência pela parte em que o ser flutuante narra a sensação de ver o próprio corpo, deitado, existindo independente da tal alma que agora está grudada no teto...
Bom, em geral, pelo que leio, a pessoa que não vai em direção à famosa luz volta mais otimista, feliz e com energia para vencer desafios. Fruto, defendem os especialistas, de um aumento da noção do diferente, de que há possibilidade até no impossível.É aí que eu acho que esse processo de sair do corpo pode ter muitos traços em comum com a expatriação.
Em uma nova cultura praticamente deletamos nossa receita de vida. Não por que abandonamos nossas referências simplesmente, mas por que temos chances de perceber um mundo diferente, repleto de sinônimos. Acho que o sinônimo não está só na fala e na escrita. Está na ação também.
Um exemplo besta: lavar roupa. No Brasil o esquema é máquina, varal e ferro. Aqui é máquina de lavar, de secar e guarda-roupa, não tem que passar. Modos diferentes para um mesmo objetivo: roupa limpa.
Tudo bem, as pessoas adotam determinado esquema por motivos que vão da facilidade à viabilidade econômica. Pode ser por costume também...
O fato é que quando aceitamos tentar fazer as coisas de outra forma ganhamos uma espécie de ticket, uma chave capaz de abrir sem grande trauma os cadeados que impedem a nossa inserção em um mundo que pode ser novo, louco, inacreditável e por aí vai. No fundo o que a gente quer mesmo é ser aceita, ?

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Adoro sexta!

Olá, X!
É, não tem jeito. Têm coisas que ficam com a gente pra sempre. Não importa a cultura, não importa o endereço. Por exemplo, sexta-feira pra mim é dia de faxina.
Interessante que mesmo com o passar do tempo e com a data da limpeza determinada mais pela agenda de quem me ajuda do que pelo meu calendário, a sexta ficou com esse ar de limpeza, de arrumação caprichada, de purificação – arriscaria até.
Engraçado que apesar do encontro estafante com aspirador e companhia, costuma sobrar pique para coisas que adoro fazer em dia assim, como uma volta por aí sem muita pretensão, uma alimentação sem tantas regras dietéticas ou de etiqueta.
Claro que tem sexta de lascar. Também tem sexta que tanto faz. Mas na maioria das vezes esse último dia útil da semana carrega um mundo de possibilidades...
Tudo bem, quem não adora sexta-feira? Vinicius preferia sábado. Sou normal, gosto de elogiar a sexta. Claro que não escapei da labuta, mas tudo bem, é que - como já disse - sexta carrega um mundo de possibilidades.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Em busca do eu em outro idioma.

Olá, X!
Hoje entrei em contato com dois livros que jamais chamariam minha atenção não fosse esse estado expatriático. É que se tem uma coisa que a gente não pára pra pensar é sobre a importância de compreender e ser compreendida, ao menos, na maioria das vezes.
O primeiro, Lost Translation, trata da comunicação em sua forma mais ampla sob o ponto de vista de alguém que, para sobreviver, teve que aprender o -a- de uma língua estranha em plena adolescência.
O interessante é que Eva Hoffman acabou construindo sua carreira exatamente a partir da palavra estrangeira. Polonesa educada no Canadá e britânica por opção, a autora - cidadã americana - é professora em Havard e colaboradora do New York Times.
O livro de Eva marca, porque trata da perda de referência, perda do suporte intelectual e, talvez, até perda de malícia quando é necessário adotar outro idioma. Lembra da história de ser café com leite?
O outro livro me fez pensar na questão da criançada que tem saído cedo de casa para acompanhar a escalada profissional dos pais.
The Rice Room traz a história de
Ben Fong-Torres. Nascido nos Estados Unidos, o drama do escritor da Rolling Stones é a comunicação com os próprios pais, imigrantes chineses. Fong-Torres não aprendeu mandarim e seus pais nunca entenderam muito bem o inglês.“Sou um jornalista, meu trabalho é comunicar mas eu nunca consegui ter um contato bem sucedido com as pessoas mais importantes para mim”. Angustiante...

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

X Entrevista. Estranho Idioma.

Olá, X!
O professor Fernando Megale avalia a experiência da expatriação sob o ponto de vista do psicólogo. Ele aborda aspectos como preconceito e expectativas, além de pontuar algumas características do processo de formação de um cidadão do mundo. Aproveite!

X: Com a globalização, a expatriação é uma realidade para um número cada vez maior de profissionais. Mas a experiência que promete ser rica em termos pessoal, profissional e financeiro pode não dar o resultado esperado. Um levantamento da consultoria Mercer indica que 40% das expatriações são um fracasso. A principal causa disso, segundo a pesquisa, é a falta de adaptação da família aos novos costumes. Em um mundo onde a novidade é tão valorizada, por quê resistimos tanto às mudanças?
FM: Penso que a questão tem dois lados: um refere-se aquele que é o expatriado em sua posição de contato com cultura e costumes diferentes e estranhos. A globalização tenta dar uma idéia de que tudo e todos somos iguais, o que é falso. Então certamente nessas situações de encontro com o novo, a questão da diferença vai surgir.
Outro lado refere-se ao modo como o expatriado é recebido no país ou cidade, pois trata-se da entrada de um estranho no cotidiano, e as questões migratórias nunca são muito tranquilas.


X: De que forma o idioma estrangeiro interfere na elaboração da então condição de expatriado?
FM: Acho que é fundamental. A língua, além de ser o principal meio de nos comunicarmos, representa o marco de nossa identidade, o modo como nomeamos o mundo na origem. Em uma situação de expatriado, é lógico que a língua interfere em demasia nesta confusão de lugares, costumes e modos de agir no mundo.

X: Como expatriada digo que o impacto da mudança é profundo. Ainda em "terra firme" é possível preparar-se para aproveitar a experiência de estrangeiro?
FM: Talvez a melhor preparação seja não imaginar que a solução da vida está no outro país, ou seja, acreditar numa espécie de solução mágica que se encontra no outro lugar. É uma forma de encarar a vida por lá de um modo mais realista, levando em consideração a certeza de que o expatriado está chegando em um lugar estranho, com tudo o que isso nos causa.

X: Com os olhos no futuro, qual o papel dos pais e da escola na formação de uma geração que tende a ter cada vez mais endereço não fixo?
FM: Podemos ampliar esta questão, pois há em cada um de nós algo de "endereço não fixo". Explico: a preparação passa por experiências nas quais as crianças tenham um real contato com coisas e costumes que são estranhos aos delas. A preparação passa por um questionamento de sua própria identidade para, em seguida, poder vislumbrar o diferente. Temas como preconceito, racismo, diferenças, estranhamentos, etc. são bons motores para tais discussões.

Fernando Megale é doutor em Psicologia. Atua nas área de Psicologia do Desenvolvimento Social e da Personalidade e coordena o curso de pós-graduação em Sócio-Psicologia da FESPSP.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Maionese, meu percurso preferido.

Olá, X!
Hoje tive que falar sobre meu hobby. A lista de coisas que gosto de fazer até que é recheada. Percebi que minhas preferências variam com o clima, com a fase da Lua, com o vai-e-vem das marés...
Sempre gostei de andar por aí. E nesse momento, especificamente nessa condição de visitante, tenho adorado ser turista.
Você pode pensar, ok, nada de novo, próximo assunto. Mas insisto. Tenho me divertido muito viajando. Viajando na maionese.
Só que viajar na maionese não é tão simples assim. Exige estômago para lidar com certo engodo que o excesso de novas experiências pode trazer. Também requer determinação, a maionese é escorregadia. É preciso ainda ter coragem, porque todas sabemos que maionese pode engordar.
Além disso, a viagem na maionese é uma experiência pessoal e intransferível. Por mais que eu fale desse percurso, é preciso estar preparada para saboreá-lo sem cobranças nem constrangimento.
Tem outra coisa. Nem todo mundo gosta de se lambuzar. Tem um pessoal que tem aversão a esse tipo de molho. Lógico que tem sempre aquela que vai lembrar dos riscos da salmonela...
O fato é que, como já disseram, não dá pra encarar uma maionese sem quebrar os ovos. Então preciso ir. É que mexer com claras e gemas ainda é um processo complicado para mim.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Estou de folga. Será mesmo?

Olá, X!
Feriado por aqui, dia do trabalho. Como no Brasil, é dia do trabalhador aproveitar o tempo como bem entender.
Interessante, dia de folga por essas bandas está sempre relacionado à grandes promoções. A palavrinha sale - sempre em vermelho, sempre com letras gordinhas - é capaz de despertar sensações que vão do desejo à urgência num toque da seta, num virar do volante.
Tem também o turismo, que pode ser mais um consumo desenfreado como outro qualquer. Quer uma indicação de passeio?
Roteiros que vêm acompanhados dos famosos "imperdível - o mais visitado - tem um monte de lojinhas" parecem justificar tanto esforço para vencer multidão e burocracia até o destino pretendido.
Enquanto arrumava a mochila para o Labor day longe de casa dei uma volta pelo fim de semana do Valor e escutei as rápidas palavras do psicanalista Charles Melman, francês que está a trabalho no Brasil. Ele lembrou que –não tem jeito - somos escravos dos objetos destinados à satisfação. Somos todos escravos desses objetos. A questão é: que satisfação é essa? Alguém se habilita a ir contra o fluxo?