Olá, X!Às vezes gosto das entrelinhas. Principalmente daquelas que não são de propósito.
Hoje umas dessas, boba até, me devolveu a postura retinha em meio à uma aula sobre interpretação.
Um aluno árabe não conseguia entender por que tinha errado uma questão. Para ele, Tula, personagem principal de O Casamento Grego, não estava sendo irônica ao falar sobre as valiosas lições que aprendia nas aulas de Grego. Não sei se você viu, a cena é aquela em que o professor diz que se fulano tem um ouro e cicrana tem nove, então logo poderão se casar.
Eu fiquei pensando por que o aluno não havia encontrado a ironia ali. Era uma cena fácil, simples. Não para ele. Não para a realidade dele.
O assunto passou. O cara é inteligente e logo percebeu a diferença. Mas fiquei com aquilo na cabeça. Quantas vezes a gente nem percebe que o mundo vai além da esquina, além da noção pessoal de situações e sentimentos? Quantas vezes não magoamos, ferimos, humilhamos sem ao menos perceber? Quanto mal-entendido não poderia ser evitado.
É estranho porque não tem relação com preconceito explicito ou subentendido. É mais grave. Está relacionado à falta de consciência, de atenção, de cuidado, ao excesso de egoísmo.
Lembrei de outro “causo”. Da professora paquistanesa que ficava irritada com o fato dos americanos nunca saberem onde estão as informações básicas de um passaporte. Ela só ficou mais calma depois de entender como era difícil para o americano médio conhecer um passaporte. Afinal, geralmente tem passaporte só quem sai do país, né?
O novelo foi diminuindo até eu resgatar Anais Nin. A expatriada famosa, francesa de nascimento e americana por decisão, resumiu esse meu dia assim: não vemos as coisas como elas são, mas como nós somos.
Acho que ter isso em mente é um grande alívio...

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